REIKI e o valor da GRATIDÃO

A gratidão é uma virtude que precisa ser desenvolvida continuamente, tornando-se um hábito diário. Normalmente não lembramos de agradecer, mas reclamamos com frequência. É importante adotarmos uma atitude positiva, agradecendo desde a hora que acordamos até a hora de dormir. Quando fazemos isso, abrimos nosso coração e nossa compreensão, valorizando as bênçãos que recebemos todos os dias. Desse modo, passamos a perceber as dádivas que não havíamos notado. Passamos a sentir como fomos protegidos, amparados e auxiliados tantas e tantas vezes.

O sentimento de gratidão nos liberta da preocupação. Ao agradecer, nosso coração descansa, nossa mente se aquieta e ficamos livres de tantas tensões da vida moderna. A gratidão ameniza as dores emocionais, como a depressão, a tristeza, a solidão e a ansiedade. Em uma série de estudos experimentais, Emmons e McCullough – pesquisadores americanos sobre o comportamento humano – concluíram que sentimentos de gratidão aumentam a saúde física e a qualidade da vida diária, e que pessoas gratas demonstram mais estados mentais positivos, como animação, determinação e atenção. Além disso, também são mais generosas, cuidadosas e atenciosas para com os outros.

Ao desenvolver o hábito de agradecer, acionamos a energia curativa do universo e modificamos as circunstâncias e o ambiente ao redor. Em muitos momentos de nossa vida, passamos por problemas e situações difíceis de serem resolvidas e, às vezes, é um desafio sentir gratidão por acontecimentos negativos. Mas as dificuldades e as perdas nos ensinam muito e nos fazem amadurecer, nos fortalecendo emocionalmente. Possuir clareza sobre essa questão nos auxilia a desenvolver o sentimento de gratidão por nossa vida em todos os aspectos, nos trazendo equilíbrio, compreensão e amor por tudo e por todos.

GRATIDÃO É UM DOS PRINCÍPIOS DO REIKI

O Reiki oferece muitas ferramentas que podem nos ajudar a ter mais concentração nas bênçãos que recebemos a cada dia. Ler e praticar os cinco preceitos do Reiki com dedicação nos auxilia muito a desenvolver o hábito de sermos gratos por tudo em nossa vida. O terapeuta Reiki, através de sua prática, vai desenvolvendo um estado interno desprovido e desapegado de expectativas e julgamentos.

Trata-se de um estado psíquico de gratidão, pois o Reiki é uma dádiva resgatada de práticas milenares, que hoje podemos utilizar para curar todos os seres de forma simples, verdadeira e amorosa.

SÓ POR HOJE, SEJA GRATO

“Só por hoje seja grato”. Este é um dos cinco princípios do Reiki para a prática de cada dia. Desse modo, uma das funções da energia Reiki está em expressar gratidão e trazer ao nosso planeta e seus habitantes essa energia que está intimamente ligada ao amor por tudo e por todos.

Gratidão é prática diária. Nos sentimos muito bem quando nos lembramos de nossas bênçãos. Nossos corações e nossas mentes tornam-se abertos, positivos, inspirados e receptivos. Desse modo, fica mais fácil ter uma mente criativa, o que propicia a energia necessária para que possamos manifestar os nossos objetivos e sonhos.

Quando pensamos em tudo o que não é bom o suficiente em nossas vidas, podemos trabalhar a gratidão por tudo e por todos, eliminando pensamentos negativos que circulam através da vibração da mente, como a negatividade, a culpa, e as críticas que nos roubam de uma vida plena e feliz.

Nossas mentes negativas podem afetar os nossos relacionamentos também. Se estamos nos culpando, criticando ou julgando, não estamos com nosso coração aberto e podemos perder a oportunidade de amar outra pessoa da maneira mais completa possível. É importante focar apenas no que você ama, no que diz respeito às pessoas com as quais se relaciona.

Normalmente, é uma questão de treinar as nossas mentes para pensar sobre as nossas dádivas. Gerir a nossa mente pode ser um trabalho que exige tempo e esforço. Reiki e gratidão são ferramentas poderosas que podem instantaneamente mudar os nossos pensamentos no momento em que nos concentramos em todos os aspectos positivos que ocorreram em nossa vida. Um coração grato é uma das maneiras mais rápidas de curar o pensamento negativo e as percepções distorcidas. “Um coração grato é uma das maneiras mais rápidas de curar o pensamento negativo e as percepções distorcidas.”

Quando você perceber o poder de seus pensamentos e começar a monitorá-los, estará consciente de ter tomado, por si mesmo, o primeiro passo para criar uma mudança positiva. O verdadeiro segredo está em assumir a responsabilidade por você e desenvolver a capacidade de expressar gratidão em todos os aspectos da sua vida – até mesmo os indesejados, estressantes e dolorosos.

A aplicação de Reiki – assim como o seu recebimento – promove relaxamento e naturalmente torna o coração agradecido. A prática realizada por meio da imposição de mãos purifica os padrões mentais, limpa a mente das emoções e dos sentimentos negativos que impedem o indivíduo de sentir gratidão.

Através do contato com esta energia, nos tornamos sensíveis à natureza, despertando nossa percepção para observar mais a beleza do mar, das montanhas, das flores e das árvores. É maravilhoso ser uma pessoa cheia de gratidão!

SER GRATO ATRAI A ENERGIA DA ABUNDÂNCIA EM NOSSAS VIDAS

Estarmos cheios de gratidão é fundamental para o que o monge budista japonês que redescobriu o Reiki, Mikao Usui, descreve nos preceitos do Reiki como o “remédio milagroso para todas as doenças”. Viver num estado de gratidão nos transporta para um círculo natural de abundância. Transforma reclamação em reconhecimento, nos ajudando a focar no que temos, ao invés no que desejamos ter. O universo é abundante, basta olhar em volta e agradecer.

Como a escritora americana, Melody Beattie, sabiamente colocou: “A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela transforma negação em aceitação, caos em ordem, confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã”.

Pode ser útil manter um diário de gratidão, ou escrever uma lista na qual você possa postar as situações que trazem esse sentimento em sua vida. Assim, quando damos graças por nossas muitas bênçãos, agradecemos por todos os sofrimentos, bem como os aspectos positivos da vida. Quando aprendemos com as dificuldades nos tornamos mais pacientes, compassivos, amorosos e pacíficos. E o Reiki também nos auxilia a estarmos abertos para as lições de vida que nos fortalecem como indivíduos.

A gratidão e a aceitação andam juntas, pois é necessário aceitar quem você é primeiro. Você é o que tem que ser, você está onde deve estar e você tem o que tem que ter. Isso não está ligado ao conformismo e à falta de atitude, mas apenas simboliza a gratidão por saber que está tudo no seu devido lugar. “Você é o que tem que ser, você está onde deve estar e você tem o que tem que ter. Isso não está ligado ao conformismo e à falta de atitude, mas apenas simboliza a gratidão por saber que está tudo no seu devido lugar.”

Ao invés de ficar aí paralisado numa pequena situação, como um carro que não funciona, um emprego em que você não é reconhecido, um relacionamento que não é bem o que você desejava ou até mesmo uma doença, transforme-se!

O que acontece com você afeta a todos os seres. Por isso, vibre numa frequência mais alta, de amor incondicional, por tudo, por todos e seja grato. É isso o que o Reiki ensina: uma forma melhor de ver a vida e de tratar as pessoas com fé, gratidão e muito amor.

Fonte: Personare

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Seu corpo registra energeticamente sua história de vida

Mais eficiente que a memória do computador, seu corpo registra tudo que aconteceu com você desde a infância até agora. O psicólogo e teólogo francês Jean-Yves Leloup relaciona símbolos arcaicos com várias partes do corpo e esclarece as causas físicas, emocionais e espirituais das boas sensações e de algumas doenças.

Uma página em branco. É assim o corpo novinho em folha do recém-nascido. Desde o instante do nascimento e a cada fase da vida, a pele, os músculos, os ossos e os gestos registram dados muito precisos que contam nossa história. “O homem é seu próprio livro de estudo, basta ir virando as páginas para encontrar o autor”, diz Jean-Yves Leloup, teólogo, filósofo e terapeuta francês.

É possível escutar o corpo e conhecer sua linguagem, que muitas vezes se expressa por sensações prazerosas, por bloqueios ou pela dor, que nada mais é do que um grito para pedir atenção. “O corpo não mente. As doenças ou o prazer que animam algumas de suas partes têm significados profundos”, revela Leloup.

Ele nos convida a responder algumas questões sobre pés, tornozelos, ventre, genitais, coração, pulmões e muitas outras partes. Elas podem ser nosso guia em uma viagem de autoconhecimento que toca em aspectos físicos, emocionais e espirituais: “Primeiro, podemos notar qual é nosso ponto fraco, o lugar de nosso corpo em que vêm se alojar, regularmente, a doença e o sofrimento. Há a escuta psicológica pela qual podemos prestar atenção no medo ou na atração que vivemos em relação a algumas partes do corpo. E há ainda a escuta espiritual.

O espírito está presente em nosso corpo, e certas doenças e algumas crises são manifestações do espírito, que quer trilhar um caminho, que quer crescer, que quer desenvolver-se em membros que lhe resistem”, diz ele. E continua: “Algumas depressões estão ligadas a fatores emocionais, a um rompimento, uma perda, uma falência. Mas há também depressões iniciáticas, em que a vida nos ensina, por meio de uma queda, um acidente, que devemos mudar nosso modo de viver”.


Descubra a seguir quais são os símbolos associados por Jean-Yves Leloup a cada parte do corpo e responda às questões, que facilitam a reflexão e o reconhecimento do que está impresso em você. Boa viagem!

Pés, as nossas raízes

“Será que experimentamos prazer em estar sobre a terra? Podemos imaginar o corpo como uma árvore. Se a seiva está viva em nós, ela desce às raízes e sobe até os mais altos galhos. É de nosso enraizamento na matéria que depende nossa subida à luz. É da saúde de nossos pés que vem o enraizamento”, explica Leloup.

Ele lembra que em diferentes práticas de ioga há a purificação dos pés, que são mergulhados na água salgada. “Pelos pés podem escorrer nossas fadigas e tensões.”

“A palavra pé, podos, em grego, relaciona-se à palavra paidos, que quer dizer criança. Cuidar dos pés de alguém é cuidar da criança que o habita. Perguntei a um sábio: ‘O que posso fazer para ajudar alguém?’ Ele respondeu: ‘Lembre-se de que essa pessoa foi uma criança, que ainda é uma criança. E que tem dor nos pés.’”

Preste atenção: verifique se seus pés são seu ponto fraco. Como você se apoia sobre eles? Em seguida, toque-os, sentindo ossos, músculos e partes mais ou menos sensíveis. Quais são suas raízes familiares? Quais as expectativas de seus pais em relação a você?

Qual seu sentimento em relação a filhos?


Tornozelos, a possibilidade de ir em frente

Termômetro da rigidez ou da flexibilidade com que levamos a vida, os tornozelos têm relação direta com o momento do nascimento.

“Por que esse é também um momento de articulação entre a vida dentro e fora do útero. Alguns de nós conheceram dificuldades e viveram até traumas nesse elo que une a vida fetal com o mundo exterior. O corpo guardou essa memória e a expressa na fragilidade dos tornozelos”, diz o filósofo.

Segundo Leloup, os tornozelos simbolizam também o refinamento da vida, as relações íntimas e a articulação do material com o espiritual. As pessoas em que o tornozelo é o ponto fraco têm dificuldade de avançar nos vários aspectos da vida. Dar um passo a mais é ir além de nossos limites e também saber aceitar o que se é, seja isso agradável ou não. “Essa é a condição para ir mais longe”, finaliza ele.

Preste atenção: você costuma ter dor nos tornozelos? Essa região é rígida ou flexível? Sofreu entorses? Em que momentos de sua vida eles ocorreram? É difícil avançar em direção ao que você quer? Qual é o passo que você precisa dar e o passo ao qual resiste?


Joelhos, o apoio para dar e receber colo

A flexibilidade é uma das qualidades importantes para que os joelhos sejam saudáveis. “Quando eles são rígidos, é provável que surjam problemas na coluna vertebral e nos rins”, lembra Leloup, que nos revela o significado mais profundo dessa parte do corpo.

“Em algumas línguas, estranhamente há uma ligação entre a palavra filho e a palavra joelho. Em francês, por exemplo, genou, joelho, tem a mesma raiz da palavra générer, gerar. Em hebraico, joelho é berekh, e também bar e bèn, que significa filho. Assim, ser filho, ser filha é estar no colo, envolvido por esse gesto, que é o elo entre os joelhos e o peito. Temos necessidade de dar e receber essa confirmação afetiva. E manter alguém no colo, sobre os joelhos serve para manter o coração aberto”, finaliza.

Preste atenção: observe como são seus joelhos. Eles são flexíveis, rígidos, doloridos? É bom tocá-los ou não? Quem o pegou no colo quando você era criança? Esse gesto de intimidade é familiar para você? Qual a sensação? E você, para quem dá colo (seja fisicamente, seja como símbolo de acolhimento)?


Genitais, a energia de vida

O teólogo Jean-Yves Leloup fala dos tipos de amor e prazer, dos traumas e das sensações vividos na infância que marcam para sempre nossa sexualidade. Ele ressalta que o encontro de dois corpos pode ser mais que físico. “A representação mais primitiva de Deus foi encontrada na Índia e são o lingan e a ioni, o símbolo fálico masculino e o genital feminino. Assim a representação do sexo foi a primeira feita pelo homem para evocar Deus – porque o sexo é onde se transmite a vida. Dessa maneira, passa a ser o local da aliança, algo de muito sagrado”, considera Jean-Yves Leloup. “Portanto, a sexualidade não é somente libido. Essa libido pode tornar-se paixão, passar através do coração e transformar-se em compaixão. É sempre a mesma energia vital, que muda e se transforma de acordo com o nível de consciência no qual nos encontramos.”

Preste atenção: quais são suas dores ou doenças relacionadas aos órgãos genitais? Você sofre desses males? Qual a sensação diante dos seus genitais (vergonha, repulsa, prazer)? Qual sua postura em relação à sexualidade (à sua própria e ao sexo no contexto cultural)?


Ventre, o centro processador de emoções

Estômago, intestinos, fígado, vesícula biliar, baço, pâncreas, rins são os órgãos vitais abrigados em nosso ventre. Eles são responsáveis pela transformação do alimento em energia, pela absorção de nutrientes e pela eliminação de toxinas.

Emoções como raiva, medo, prazer e alegria acertam em cheio essa região e também precisam ser digeridas. Leloup aponta que “o perdão tem uma virtude curativa porque podemos tomar toda espécie de medicamento, sermos acompanhados psicologicamente, mas há, por vezes, rancores que atulham nosso ventre, nosso estômago, nosso fígado”. Ele destaca que todas as partes do corpo lembram a importância de respeitar o tempo de digestão e assimilação de tudo que nos acontece de ruim e também de bom.

Preste atenção: como é sua digestão? Quando você tem uma forte emoção, sente frio na barriga ou alguma reação na região? Quais foram os fatos difíceis de ser digeridos em sua vida? O que há por perdoar?


Coração e pulmões, o pulso vital

Esses dois órgãos estão intimamente ligados a nossa respiração. “O coração é um dos símbolos do centro vital, ele é o centro da relação. E é importante observar como nossa vida afetiva influencia nossa respiração. Às vezes, nos sentimos sufocar porque não correspondemos à imagem que os outros têm de nós, e isso também impede que o coração bata tranquilamente. Para alguns, querer ser normal a qualquer preço, querer agir como todo mundo, pode ser fonte de doenças”, assinala o psicólogo Jean-Yves Leloup.

Agir de acordo com suas vontades mais genuínas e aceitar o que se é, mesmo que isso não combine com o grupo, pode ser uma das formas de se libertar e sair do sufoco.

Preste atenção: você já teve períodos prolongados de angústia ou tristeza? O que liberta sua respiração e o que o sufoca? Você se preocupa muito com a imagem que as pessoas têm de você? Já parou para ouvir as batidas de seu coração e o das pessoas a quem você ama? O que deixou seu coração partido? O que o fez bater feliz?

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Fonte: Jean-Yves Leloup

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Sonhar é preciso

O psiquiatra Carl G Jung foi um pioneiro na pesquisa com os sonhos. Para ele os sonhos não revelam apenas a causa básica do sofrimento ou da angústia emocional, mas também indicam o potencial de vida latente em uma pessoa. Os sonhos trazem soluções criativas para os problemas diários da vida. Jung descobriu que enquanto dormem, através dos sonhos, as pessoas despertam para aquilo que realmente são.

O sonho é um fenômeno universal, vale dizer, todos nós sonhamos e isto está provado cientificamente. No entanto algumas pessoas dizem que não sonham, mas o fato é que elas não se lembram de seus sonhos.

É preciso ter interesse nos sonhos para que eles também se interessem pelo sonhador. Os sonhos escapam rapidamente como água que escorre pelas mãos!

Não é preciso “acertar” a interpretação do sonho. O acerto estará na percepção do sonhador, caso o que tenha sido dito ou observado, faça sentido para ele, naquele momento de vida. Um sonho pode desencadear mudanças muito significativas na vida de uma pessoa.

Os símbolos sempre apontam para uma direção, e carregam consigo um potencial transformador. Os sonhos têm essa função de restaurar, curar e mudar a visão de uma determinada situação, que aparentemente não tem saída.

Tereza Kawall

 

“Assim como a planta produz flores, a psique cria símbolos.” (Jung)

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Você é maior que o seu passado: Liberte o potencial de sua criança interna e seja feliz

“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 175)

Todos nós carregamos dolorosas lembranças de cenas infantis traumáticas que contém uma intensa carga afetiva, um forte magnetismo e uma grande influência em nossas vidas adultas. É inegável a correlação entre trauma infantil, distorções futuras da realidade e sofrimento. É inegável, também, que para desfrutarmos de uma vida mais significativa e vivermos uma realidade menos distorcida por nossos complexos, devemos ouvir e acolher nossa criança interior negligenciada. Mas buscar o contato com ela não significa apenas investigar as teias psíquicas/emocionais que ligam as dificuldades atuais às cenas traumáticas da infância. O reencontro com a nossa criança interior é, também, uma oportunidade para darmos vazão à natureza lúdica e espontânea da criança que ainda nos habita.

A parte infantil de nossa personalidade é dual. “O eu infantil é espontâneo, criativo, brincalhão, sensível, reativo emocional e fisicamente, e cheio de prazer, deslumbramento e amor. (…) Mas a criança também é egocêntrica, exigente, dependente, irresponsável, não discriminativa, caótica, imatura e supersticiosa” (Thesenga, O Eu sem Defesas, p. 79). Podemos ver o “eu criança” operando em nós, adultos, nessas duas facetas. Ele pode interferir tanto limitando percepções e escolhas quanto nos oferecendo novas e criativas formas de perceber e escolher.

Como tudo o que existe possui uma dupla face, é fato que o contato com nossa criança interna nos conduz tanto à revivência das dores, traumas e abandonos infantis, quanto à revivência de nossa inocência, espontaneidade, encantamento e criatividade. Trabalhar com nossa  criança interior exige de nosso eu adulto uma dupla habilidade: a de ser “aluno/aprendiz” e “professor/pai”. Temos muito a ensinar e a aprender com nossa parte infantil. Podemos nos nutrir das energias criativas e espontâneas do eu criança e devemos ajudar no amadurecimento de seus aspectos não desenvolvidos, imaturos e egoístas.

A criatividade, a confiança, a espontaneidade, a simplicidade, a intuição e a capacidade de conceber a vida de forma mais positiva e lúdica são forças que nos habitam. Elas pertencem à parte infantil de nossa personalidade e dão suporte à nossa parte adulta. Como canta Milton Nascimento, “toda vez que o adulto balança, toda vez que a tristeza me alcança, o menino vem pra me dar a mão…”

Recorrer à criança interior é buscar força renovada para lidar com às pressões externas e internas, é integrar a dimensão lúdica à vida adulta e resgatar a confiança em nosso potencial criativo. Se ignoramos ou obstruímos o acesso à nossa fonte criativa, tornamos a vida por demais concreta, dura e literal. Mas, se lançarmos mão dos recursos criativos de nossa criança interior poderemos encontrar saídas inusitadas para os inúmeros conflitos da vida cotidiana.

“Existe no interior de toda personalidade humana uma criança. (…) Essa criança interior é muito sábia. Sente-se ligada a toda a vida. Conhece o amor sem fazer perguntas. Mas é encoberta quando nos tornamos adultos e tentamos viver apenas de acordo com a nossa mente racional. Isso nos limita. Urge descobrir a criança interior para começar a seguir a orientação. Você precisa voltar à sabedoria amante, confiante, da sua criança interior para desenvolver a capacidade de recebê-la e segui-la. Todos ansiamos por liberdade – e através da criança a lograremos. Depois de conceder mais liberdade à sua criança, você poderá iniciar o diálogo entre a parte adulta e a parte infantil da sua personalidade. O diálogo integrará a parte livre e amante da sua personalidade com o adulto sofisticado” (Brennan, Mãos de Luz, p. 36).

Essa integração resulta em crescimento/desenvolvimento emocional e psicológico. Na psicologia junguiana, a criança, enquanto símbolo, guarda estreita relação com o processo de individuação. Por ser a portadora da força criativa capaz de promover a religação do ego com as orientações do Self, a criança é símbolo do desenvolvimento rumo à autonomia e à realização.

Para Jung, o símbolo da criança traz em si a ideia de potencialidade, de realização da potência. Em A Psicologia do Arquétipo da Criança, ele descreve os poderosos atributos da criança simbólica:

“é uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo” (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, p. 171, parágrafo 289).

A criança simboliza a união dos opostos, a síntese, a integração de conteúdos inconscientes. É um símbolo que interliga o passado e o futuro, o frágil e o poderoso, o tolo e o sábio… O arquétipo da criança tem, portanto, um efeito redentor, capaz de compensar ou corrigir as inevitáveis unilateralidades ou extravagâncias da consciência. Quando emerge num adulto, por exemplo num sonho, anuncia o nascimento de uma nova consciência, que contém a chave para abrir a porta de saída de um conflito, com o qual a mente consciente unilateral não estava sabendo lidar.

A criança arquetípica, assim como outros motivos que também possuem a qualidade de perfeição (mandala, flores, pedras preciosas), carrega em si uma força libertadora, um convite para que façamos contato com nosso potencial de síntese, de unidade e de auto realização. Um convite para que nos inspiremos nas qualidades características desse arquétipo: sinceridade, pureza, autenticidade e abertura para o futuro.

“Um aspecto fundamental do motivo da criança é o seu caráter de futuro. A criança é o futuro em potencial. Por isso a ocorrência do motivo da criança na psicologia do indivíduo significa em regra geral uma antecipação de desenvolvimentos futuros (…) A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir.Não admira portanto que tantas vezes os salvadores míticos são crianças divinas. Isto corresponde exatamente às experiências da psicologia do indivíduo, as quais mostram que a ‘criança’ prepara uma futura transformação da personalidade. No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É, portanto, um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador da salvação, um propiciador da completude”. (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, p.165, parágrafo 278)

A criança divina arquetípica que habita nossa psique, a criança real que um dia fomos e a criança ferida dentro de nós são, todas, portadoras de luz, amplificadoras da consciência. É estabelecendo contato com elas que reencontraremos o caminho da auto realização plena. Resgatá-las é tornar a brincar e a criar em nossas vidas, afinal, como bem escreveu a psicodramatista Rosa Cukier (Sobrevivência emocional: as dores da infância revividas no drama adulto), pior do que quebrar o braço na infância brincando de ser Deus, é decidir, por medo de se machucar de novo, parar de brincar de ser Deus! E essa “brincadeira”, que nada tem a ver com megalomania, inflação psíquica ou prepotência, é, junguianamente falando, nossa missão de vida mais séria. “Brincar de ser Deus” é realizar, de forma leve, criativa e perseverante, nossa mais árdua tarefa: despir nossa essência divina de todas as camadas que encobrem nosso verdadeiro eu (Self).

Fonte: Portal Raízes

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A gente amadurece muito quando se permite acriançar

E isso me faz diferente e bem-aventurado. Diferente porque cada uma das minhas crianças é apenas minha; e as criei dentro de mim e dei-lhes vida com as escolhas que fiz durante a vida. Feliz porque a cada hora posso usar uma máscara diferente e viver noutra dimensão do tempo de hoje. Mas devo sempre voltar ao ponto de origem, e, lá, reencontrar-me puro e animado.  Quando me olho no espelho vejo a criança em que continuo.

Tem gente que cresce e abandona a criança que foi um dia; eu não. Sabem por quê? . Por isso não abro mão sê-la por inteira; e eu com um presente nas mãos: a vida; o palco que montamos com nossas crenças e certezas. Quero ser, dia e noite, até nas quimeras, a criança que abre  as madrugadas. Posso reviver a criança quando penso e trabalho; aliados necessários para o brilho do caráter. Esse jeito me faz recomeçar.

Na verdade, depois que uma nuvem negra passa, renasce o sol com alegria girassolada. Outra nuvem vem e passa, e o sol volta a brilhar. Mesmo que a nuvem teime em ficar quieta, acima dela está o sol em vigília para iluminar o caminho. E volta sempre no espírito que venta das alturas.

A Era do Gelo se derreteu com o sol a florescer o jardim da terra. E a semente estava na terra ou fora levada pelo vento que a espalhou pelo mundo. A flora e a fauna vivem a espera de aparecer, como se fosse uma criança escondida atrás da porta. Já reparou que cada uma das formas de vida traja uma roupa diferente para enfrentar a dificuldade do tempo? A natureza é a criança eterna que sobrevive porque não abandona sua origem de Ser como foi criada. Então suporta e evolui com as caras da sua diversidade.

Quando a circunstância aperta, a Lei da Evolução das espécies ajuda a natureza a se adaptar e desenvolver. Com o homem também acontece assim. As alegrias se manifestam mais fecundas quando prevalece o espírito da pureza que encanta e comove o coração de Deus. O essencial é que em cada etapa haja a candura por trás das máscaras que vai vestir. Em qualquer caminho que escolhermos a criança vai à garupa do enleio. Revive na missão que deve cumprir. Cadê a criança que estava aí?

Doracino Naves

 

 

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SOFRER PARA DESPERTAR O SÁBIO

Muitas vezes ouvimos o ditado de que a dor é inevitável e o sofrimento é opcional, dando a conotação de que podemos nos livrar ou evitar o sofrimento. Porque nossa cultura, cada vez mais materialista, nega constantemente a dimensão anímica e espiritual, entendendo que a dor, por ser física, é inevitável, mas para ela temos analgésicos. Porém, o sofrimento, como vem da alma, é melhor que não apareça porque, na realidade, quando ele vem nada pode alivia-lo de fato, devido ao fato de que sua origem é a angústia pela falta de sentido e significado para a vida. Mesmo assim, esta frase parece que coloca o indivíduo saudável como aquele que consegue negar ou evitar o sofrimento.

Isso me deixa muito incomodado, porque precisamos sofrer, na condição do sujeito que vivencia as experiências e os afetos, para evoluirmos, indo ao encontro da nossa dimensão sombria para acessarmos nossa alma e nosso daimon, a centelha divina que nos impulsiona para a salvação, iluminação ou, junguianamente falando, a individuação. Porém, como estamos condicionados a ir apenas às direções do que está na frente, acima e pra fora, cultuando as deusas razão e matéria, em busca do prazer quantitativo e efêmero, o sofrimento virou patologia e, na maioria das vezes, diagnosticado como depressão. Aprendemos a negar a angústia e, com isso, a criatividade genuína. Valorizamos as anestesias, os analgésicos, os ansiolíticos e os antidepressivos, assim não fazemos a descida aos infernos, imergindo na profundeza da alma, apesar do sofrimento do ego, para cumprir a verdadeira jornada do herói na direção do si mesmo. E, para cumprir essa jornada, tão temível na contemporaneidade, é necessário irmos para trás, para baixo e para dentro.

Aprender a sabedoria da alma, com o propósito de atingir nossa meta de união com o absoluto, é quase um crime. Porque neste estado teremos impulsos de amar e servir e isso é ruim para o sistema alienante de consumo, acúmulo, dívidas e trabalho sem sentido e significado. Aprendemos a conter as emoções e, com isso, a ficarmos cada vez mais neuróticos, consumindo toda sorte de substâncias psicoativas com intuito de aliviar a angústia e esperar a morte chegar. Para romper esse ciclo é necessária uma crise que produza a metanóia. A mudança de paradigmas, possibilitando o desapego e o cuidado, com resgate da intimidade e do amor, como instrumentos arquétipos em desuso na atualidade.

O mal está associado a escândalos – que em grego é skandalon, significando obstáculos e empecilhos – suscitando crimes, golpes, latrocínios, homicídios, suicídios, guerras, discórdias, prostituição, traições, invejas, enfim toda sorte de tragédia, angústia e caos que constituem a frágil e aflitiva condição humana. A pedra de tropeço, que significa manquejar, designa o obstáculo que repele para atrair, atrai para repelir. Não podemos topar com essa pedra uma primeira vez sem voltar sempre a topar com ela, pois o acidente inicial e depois os seguintes a tornam sempre mais fascinantes. Da mesma forma, o pecado – hamartia – também contextualiza a falta e a perda do alvo, representado pelo daimon ou chamado vocacional da existência. Por isso, o sofrimento do sacrificado pode representar um processo de lapidação ou de queda, que significa, simbolicamente, a tomada de consciência e o aperfeiçoamento, ele também pode permitir o restabelecimento da ordem.

A Crise é a base de toda a evolução humana. Apesar dela gerar sentimentos de violência e de violação, ela é a possibilidade de tomada de consciência e evolução criativa. Porque a crise, de maneira violenta, tira o indivíduo de sua rotina profana, onde a vida é vivida sem significado e sem sentido, podendo levá-lo, pela necessidade de superá-la, a uma dimensão sagrada e de sabedoria. É por meio da superação de situações de conflito que o sagrado imanente e inconsciente pode tornar-se transcendente e consciente. Mas, para isso, é necessário termos a consciência do caminho e do daimon, evitando assim o trágico, que equivale a trafegar sem destino, o pecado, a perda do alvo ou do propósito, o desastre, a desconexão com os astros e, consequentemente, o escândalo, ou tropêço. Apesar de que todas essas ocorrências traumáticas e dramáticas possibilitam a tomada de consciência e o realinhamento com o processo de individuação, proposto por C. G. Jung.

Compreendo que todas as manifestações mórbidas, incluindo o trágico e o desastroso, nas esferas psíquicas, físicas, familiares, laborais, sociais, espirituais ou ecológicas podem ser grandes possibilidades de tomada de consciência. Porque estamos vivendo numa época de dissociação, onde todos os sistemas estão ruindo. Mas isso, a meu ver, é o prenúncio da mudança de paradigma para este atual sistema egoísta, consumista e cumulativo. Por isso que  fenômenos climáticos, biológicos e geológicos estão cada vez mais exuberantes e violentos e, como nada é por acaso, tudo isso pode ser compreendido como o estímulo para a queda e consequente tomada de consciência da humanidade.

É interessante refletirmos e ponderarmos que a atitude de não violência, a ahimsa, adotada por Mahatma Gandhi (1869-1948), na realidade foi muito violenta, porque violou o atual modelo da Lei de Talião, do olho por olho e dente por dente. Sua atitude foi de extrema violência contra a competição por meio da violência física e produziu enorme violência psíquica em seus oponentes, a ponto de possibilitar o surgimento da metanóia, ou seja, a mudança de atitude diante da brutalidade da invasão territorialista e do abuso de poder, eliminando os condicionamentos e automatismos alienantes, por dar oportunidade para a tomada de consciência, em busca de sentido e significado para as ações e para a vida.

Neste sentido, posso afirmar que o sábio é aquele indivíduo capacitado para produzir crises, no sentido de estimular tanto o autocentrismo quanto o altruísmo, possibilitando mortes simbólicas e mudanças de crenças na direção da expansão do autoconhecimento. Por isso, o sábio faz com que o tempo de Kronos inclua o tempo de Kairós.

Desta forma, o sábio não pode ser sempre tolerante, porque ao tolerar o intolerante ele pode retroalimentá-lo. Mas, ao invés de agir da mesma forma que o doentio, ele provoca a crise da enantiodromia, com serenidade para reconhecer que, em alguns momentos, o não agir é uma forma de agir, assim como o não falar também é uma espécie de fala, que pode dizer muito mais do que milhares de palavras ou ações. Utilizando esses instrumentos de forma consciente e consequente, sempre alinhados com sua intenção de produzir desconforto e transformação evolutiva do outro, valendo-se heroicamente de Areté e Timé, que lhe conferem honra, coragem e valor.

Para mim, o maior sentido da vida é o de servir, pois quem não vive para servir não serve para viver. Sendo que esse servir deve estar voltado para a humanidade, no dinamismo da teoria da dádiva que compreende o dar, o receber e o retribuir. Por que, neste sentido, dar é sinônimo de receber, ou seja, aquele que consegue se sentir recebendo quando está dando, além de estar numa atitude natural de liderança, terá autoridade e maturidade para servir a vida e, consequentemente, ao sagrado, ao invés de apenas se contentar, infelizmente como a maioria das pessoas, em fazer uso transitório da vida e do sagrado. Por isso, somente a troca de graça é que tem graça! Assim, por mais que a humanidade tente negar, parece que estamos na emergência de várias crises, da política ao meio ambiente, da ética aos valores espirituais, para que suas soluções possam produzir a superação e o advento de um novo paradigma.

Reiterando que sofrer é inevitável, mas a dor pode, talvez, ser superada. Transformada. Mas o sofrimento? O padecimento? As paixões da alma? Esses são próprios da vida. Simplesmente, porque não controlamos os outros, e muito menos a nós mesmos! Na realidade, não temos muito o que fazer com o outro de nós mesmos, representado por nossa sombra e complexos, que possuem, na maioria das vezes, autonomia, independência e até ascensão sobre nosso Ego que, de forma defensiva, acaba projetando esses elementos internos nos objetos externos. Isso faz com que o outro externo também seja transformando em objeto, na mesma medida dê que vamos negando nossa subjetividade, desanimando e virando objetos inertes, solitários e finitos. E, muitas e inúmeras vezes, esses outros de nós mesmos projetados em nosso entorno relacional, nos atingem gerando dor, assim como nós mesmos criamos situações de autoflagelamento físico e ou psíquico, para alimentar o complexo vitimário ou simplesmente pelo prazer da autopunição em expiar o sentimento de culpa.

Como não controlamos os outros (internos e externos, reais ou projetados), e os riscos da convivência e dos envolvimentos inevitáveis, embora, cada vez mais nos enganemos que o envolvimento não só é possível de ser evitado, como deve sê-lo. Tentamos evitá-lo, justamente, para, assim, numa tentativa insana de manter os relacionamentos sob controle, sejamos capazes de manter, também sob controle, o sofrimento. Daí que surge a dimensão do simulacro e das relações sintéticas, eliminando qualquer resquício da sabedoria.

Despeço-me com essas duas pérolas de escritores lusófonos:

“Quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria” – Clarice Lispector

“Quem não quiser sofrer que se isole. Feche as portas da sua alma quanto possível à luz do convívio” – Fernando Pessoa

WALDEMAR MAGALDI FILHO, Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: Dinheiro, saúde e sagrado – Ed. Eleva Cultural. Coordenador e professor dos cursos de especialização lato-sensu em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas, oferecidos pelo IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. wmagaldi@ijep.com.br

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Individuação: Tornando-se você mesmo

Carl Gustav Jung em “O Eu e o Inconsciente” sobre o processo de individuação:

(…) “Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir ‘individuação’ como tornar-se si-mesmo (Verselbstung) ou o ‘realizar-se do si-mesmo’ (Selbstverwirklichung).”

(…) “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais. (…) Através da persona o homem quer parecer isto ou aquilo, ou então se esconde atrás de uma ‘máscara’, ou até mesmo constrói uma persona definida, a modo de muralha protetora.”

Não se vive uma vida em vão. Cada vida, com suas idiossincrasias, tem a sua beleza. Cada um de nós tem algo a desenvolver, algo muito particular, e nossa vida, por mais que pareça não nos fazer sentido algum, caminha no sentido da realização deste ser individual, incomparável, que somos.

“Estar” no mundo é fácil. O difícil é “ser” no mundo. O processo de “ser quem você verdadeiramente é” é complexo, longo e constante.

Na verdade, desde que nascemos, somos impulsionados por todas nossas experiências a nos tornarmos nós mesmos. Cada ser é único, com anseios, desejos, ideias e objetivos próprios. A vida é esta grande jornada de descobertas e, por mais que estejamos acompanhados, caminhamos sozinhos, justamente pelo fato de nosso caminho ser único, como já disse.

A princípio, inexperientes, somos apresentados ao mundo por aqueles que cuidam de nós, ou seja, nossos pais, ou qualquer outra pessoa ou instituição que cumpra este papel. Somos grandemente influenciados por aqueles com quem convivemos e por aquilo que nos apresentam. Mais adiante, passamos por um processo mais amplo de socialização, entrando em contato com outras pessoas e instituições, aprendendo a conviver com os outros e com regras, abstendo-nos pouco a pouco de nosso inicial egocentrismo.

Vamos assim, moldando nossos desejos àquilo que é possível, muitas vezes copiando modelos impostos ou conhecidos, outras vezes, abdicando deles. Porém, o fato é que, no decorrer da vida, vamos nos dando conta de que muitos dos modelos de que nos utilizamos até aquele momento já não nos servem mais. É quando começamos a nos aproximar verdadeiramente de nós mesmos.

 

A este processo, Jung denominou “individuação”. A individuação se inicia desde o momento em que nascemos. Depois de conquistarmos nossos papéis sociais nos mais vários âmbitos (familiar, profissional, etc.), percebemos que são apenas papéis, e que, consequentemente, existimos além destes papéis. Temos uma essência. Uma profunda angústia pode nos assolar ao olhamos para o caminho já percorrido e, então, questionamos nossa vida. A vida nos parece absolutamente sem sentido, parece que nos falta algo. É quando nossa “alma” clama por algo mais.

Esta insatisfação pode ser deflagradora da mais desafiadora de todas as jornadas: o conhecimento de nós mesmos. É claro que nem todos alcançarão este conhecimento. Muitos recalcitram no que já é familiar, muitos seguem os mais diversos padrões e condutas já estabelecidos ou experimentados. Há os que quebram os padrões patologicamente, como um ato de vandalismo e autoafirmação pela oposição – o que NÃO É individuação – mas se aproxima mais de uma adolescência, que tardam em abandonar.

Tornar-se quem se é verdadeiramente implica cruzar um vale de sombras para encontrar a luz. Implica uma observação aprofundada e dolorosa dos aspectos menos sadios de nossa psique. Implica desfazermo-nos de fixações que nos trazem uma falsa segurança ou um falso, deslocado, prazer. Em outras palavras, individuar-se é para os fortes.

Como empreender esta viagem? Infelizmente, nem todos partem em destino ao autoconhecimento, por medo dos mares nunca antes navegados. E, os que partem, muitas vezes o fazem pelo caminho da dor. Nossos sonhos estão ao nosso lado, quais faróis em um mar revolto, o tempo todo, apontando a direção. O autoconhecimento é alcançado com muita reflexão, com muita observação do mundo interno, com o abandono das “máscaras” e “roupas” velhas, que já não nos servem mais. Ninguém se conhece sem conhecer sua sombra. Ninguém se encontra sem reconhecer seus “monstros”. Somente compreendemos a luz em oposição à sombra. Há muitos caminhos que podem nos levar a sermos seres autênticos, que nos conduzem ao encontro indescritível de nossa “alma”, à busca de nossa luz; a psicoterapia é um destes caminhos. E, ao nos encontrarmos de verdade, recuperamos finalmente o sentido da vida e do mundo.

No capítulo ”O processo de individuação” do livro “O Homem e seus Símbolos”, M.-L. von Franz nos deixa a mensagem: “Nossa atitude deve ser como a do pinheiro (…): não se aborrece quando o seu crescimento é obstruído por alguma pedra, nem faz planos para vencer os obstáculos. Tenta simplesmente sentir se deve crescer mais para a esquerda ou mais para a direita, em direção à encosta ou afastado dela. Tal como a árvore, devemos nos entregar a este impulso quase imperceptível e, no entanto, poderosamente dominador – um impulso que vem do nosso anseio por uma autorrealização criadora e única. É um processo no qual é necessário, repetidamente, buscar e encontrar algo ainda não conhecido por ninguém. Os sinais orientadores ou impulsos não vêm do ego, mas da totalidade da psique: o self. ” 

Iolanda Krusnauskas

BIBLIOGRAFIA:

Carl Gustav Jung, O eu e o inconsciente, Editora Vozes, 1987 (Obras Completas de C. G. Jung, v.7, t.2).

Carl Gustav Jung, O homem e seus símbolos, Editora Nova Fronteira, 1964.

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