Você é maior que o seu passado: Liberte o potencial de sua criança interna e seja feliz

“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 175)

Todos nós carregamos dolorosas lembranças de cenas infantis traumáticas que contém uma intensa carga afetiva, um forte magnetismo e uma grande influência em nossas vidas adultas. É inegável a correlação entre trauma infantil, distorções futuras da realidade e sofrimento. É inegável, também, que para desfrutarmos de uma vida mais significativa e vivermos uma realidade menos distorcida por nossos complexos, devemos ouvir e acolher nossa criança interior negligenciada. Mas buscar o contato com ela não significa apenas investigar as teias psíquicas/emocionais que ligam as dificuldades atuais às cenas traumáticas da infância. O reencontro com a nossa criança interior é, também, uma oportunidade para darmos vazão à natureza lúdica e espontânea da criança que ainda nos habita.

A parte infantil de nossa personalidade é dual. “O eu infantil é espontâneo, criativo, brincalhão, sensível, reativo emocional e fisicamente, e cheio de prazer, deslumbramento e amor. (…) Mas a criança também é egocêntrica, exigente, dependente, irresponsável, não discriminativa, caótica, imatura e supersticiosa” (Thesenga, O Eu sem Defesas, p. 79). Podemos ver o “eu criança” operando em nós, adultos, nessas duas facetas. Ele pode interferir tanto limitando percepções e escolhas quanto nos oferecendo novas e criativas formas de perceber e escolher.

Como tudo o que existe possui uma dupla face, é fato que o contato com nossa criança interna nos conduz tanto à revivência das dores, traumas e abandonos infantis, quanto à revivência de nossa inocência, espontaneidade, encantamento e criatividade. Trabalhar com nossa  criança interior exige de nosso eu adulto uma dupla habilidade: a de ser “aluno/aprendiz” e “professor/pai”. Temos muito a ensinar e a aprender com nossa parte infantil. Podemos nos nutrir das energias criativas e espontâneas do eu criança e devemos ajudar no amadurecimento de seus aspectos não desenvolvidos, imaturos e egoístas.

A criatividade, a confiança, a espontaneidade, a simplicidade, a intuição e a capacidade de conceber a vida de forma mais positiva e lúdica são forças que nos habitam. Elas pertencem à parte infantil de nossa personalidade e dão suporte à nossa parte adulta. Como canta Milton Nascimento, “toda vez que o adulto balança, toda vez que a tristeza me alcança, o menino vem pra me dar a mão…”

Recorrer à criança interior é buscar força renovada para lidar com às pressões externas e internas, é integrar a dimensão lúdica à vida adulta e resgatar a confiança em nosso potencial criativo. Se ignoramos ou obstruímos o acesso à nossa fonte criativa, tornamos a vida por demais concreta, dura e literal. Mas, se lançarmos mão dos recursos criativos de nossa criança interior poderemos encontrar saídas inusitadas para os inúmeros conflitos da vida cotidiana.

“Existe no interior de toda personalidade humana uma criança. (…) Essa criança interior é muito sábia. Sente-se ligada a toda a vida. Conhece o amor sem fazer perguntas. Mas é encoberta quando nos tornamos adultos e tentamos viver apenas de acordo com a nossa mente racional. Isso nos limita. Urge descobrir a criança interior para começar a seguir a orientação. Você precisa voltar à sabedoria amante, confiante, da sua criança interior para desenvolver a capacidade de recebê-la e segui-la. Todos ansiamos por liberdade – e através da criança a lograremos. Depois de conceder mais liberdade à sua criança, você poderá iniciar o diálogo entre a parte adulta e a parte infantil da sua personalidade. O diálogo integrará a parte livre e amante da sua personalidade com o adulto sofisticado” (Brennan, Mãos de Luz, p. 36).

Essa integração resulta em crescimento/desenvolvimento emocional e psicológico. Na psicologia junguiana, a criança, enquanto símbolo, guarda estreita relação com o processo de individuação. Por ser a portadora da força criativa capaz de promover a religação do ego com as orientações do Self, a criança é símbolo do desenvolvimento rumo à autonomia e à realização.

Para Jung, o símbolo da criança traz em si a ideia de potencialidade, de realização da potência. Em A Psicologia do Arquétipo da Criança, ele descreve os poderosos atributos da criança simbólica:

“é uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo” (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, p. 171, parágrafo 289).

A criança simboliza a união dos opostos, a síntese, a integração de conteúdos inconscientes. É um símbolo que interliga o passado e o futuro, o frágil e o poderoso, o tolo e o sábio… O arquétipo da criança tem, portanto, um efeito redentor, capaz de compensar ou corrigir as inevitáveis unilateralidades ou extravagâncias da consciência. Quando emerge num adulto, por exemplo num sonho, anuncia o nascimento de uma nova consciência, que contém a chave para abrir a porta de saída de um conflito, com o qual a mente consciente unilateral não estava sabendo lidar.

A criança arquetípica, assim como outros motivos que também possuem a qualidade de perfeição (mandala, flores, pedras preciosas), carrega em si uma força libertadora, um convite para que façamos contato com nosso potencial de síntese, de unidade e de auto realização. Um convite para que nos inspiremos nas qualidades características desse arquétipo: sinceridade, pureza, autenticidade e abertura para o futuro.

“Um aspecto fundamental do motivo da criança é o seu caráter de futuro. A criança é o futuro em potencial. Por isso a ocorrência do motivo da criança na psicologia do indivíduo significa em regra geral uma antecipação de desenvolvimentos futuros (…) A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir.Não admira portanto que tantas vezes os salvadores míticos são crianças divinas. Isto corresponde exatamente às experiências da psicologia do indivíduo, as quais mostram que a ‘criança’ prepara uma futura transformação da personalidade. No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É, portanto, um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador da salvação, um propiciador da completude”. (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, p.165, parágrafo 278)

A criança divina arquetípica que habita nossa psique, a criança real que um dia fomos e a criança ferida dentro de nós são, todas, portadoras de luz, amplificadoras da consciência. É estabelecendo contato com elas que reencontraremos o caminho da auto realização plena. Resgatá-las é tornar a brincar e a criar em nossas vidas, afinal, como bem escreveu a psicodramatista Rosa Cukier (Sobrevivência emocional: as dores da infância revividas no drama adulto), pior do que quebrar o braço na infância brincando de ser Deus, é decidir, por medo de se machucar de novo, parar de brincar de ser Deus! E essa “brincadeira”, que nada tem a ver com megalomania, inflação psíquica ou prepotência, é, junguianamente falando, nossa missão de vida mais séria. “Brincar de ser Deus” é realizar, de forma leve, criativa e perseverante, nossa mais árdua tarefa: despir nossa essência divina de todas as camadas que encobrem nosso verdadeiro eu (Self).

Fonte: Portal Raízes

Publicado em Jung | Deixe um comentário

A gente amadurece muito quando se permite acriançar

E isso me faz diferente e bem-aventurado. Diferente porque cada uma das minhas crianças é apenas minha; e as criei dentro de mim e dei-lhes vida com as escolhas que fiz durante a vida. Feliz porque a cada hora posso usar uma máscara diferente e viver noutra dimensão do tempo de hoje. Mas devo sempre voltar ao ponto de origem, e, lá, reencontrar-me puro e animado.  Quando me olho no espelho vejo a criança em que continuo.

Tem gente que cresce e abandona a criança que foi um dia; eu não. Sabem por quê? . Por isso não abro mão sê-la por inteira; e eu com um presente nas mãos: a vida; o palco que montamos com nossas crenças e certezas. Quero ser, dia e noite, até nas quimeras, a criança que abre  as madrugadas. Posso reviver a criança quando penso e trabalho; aliados necessários para o brilho do caráter. Esse jeito me faz recomeçar.

Na verdade, depois que uma nuvem negra passa, renasce o sol com alegria girassolada. Outra nuvem vem e passa, e o sol volta a brilhar. Mesmo que a nuvem teime em ficar quieta, acima dela está o sol em vigília para iluminar o caminho. E volta sempre no espírito que venta das alturas.

A Era do Gelo se derreteu com o sol a florescer o jardim da terra. E a semente estava na terra ou fora levada pelo vento que a espalhou pelo mundo. A flora e a fauna vivem a espera de aparecer, como se fosse uma criança escondida atrás da porta. Já reparou que cada uma das formas de vida traja uma roupa diferente para enfrentar a dificuldade do tempo? A natureza é a criança eterna que sobrevive porque não abandona sua origem de Ser como foi criada. Então suporta e evolui com as caras da sua diversidade.

Quando a circunstância aperta, a Lei da Evolução das espécies ajuda a natureza a se adaptar e desenvolver. Com o homem também acontece assim. As alegrias se manifestam mais fecundas quando prevalece o espírito da pureza que encanta e comove o coração de Deus. O essencial é que em cada etapa haja a candura por trás das máscaras que vai vestir. Em qualquer caminho que escolhermos a criança vai à garupa do enleio. Revive na missão que deve cumprir. Cadê a criança que estava aí?

Doracino Naves

 

 

Publicado em Reflexões | Deixe um comentário

SOFRER PARA DESPERTAR O SÁBIO

Muitas vezes ouvimos o ditado de que a dor é inevitável e o sofrimento é opcional, dando a conotação de que podemos nos livrar ou evitar o sofrimento. Porque nossa cultura, cada vez mais materialista, nega constantemente a dimensão anímica e espiritual, entendendo que a dor, por ser física, é inevitável, mas para ela temos analgésicos. Porém, o sofrimento, como vem da alma, é melhor que não apareça porque, na realidade, quando ele vem nada pode alivia-lo de fato, devido ao fato de que sua origem é a angústia pela falta de sentido e significado para a vida. Mesmo assim, esta frase parece que coloca o indivíduo saudável como aquele que consegue negar ou evitar o sofrimento.

Isso me deixa muito incomodado, porque precisamos sofrer, na condição do sujeito que vivencia as experiências e os afetos, para evoluirmos, indo ao encontro da nossa dimensão sombria para acessarmos nossa alma e nosso daimon, a centelha divina que nos impulsiona para a salvação, iluminação ou, junguianamente falando, a individuação. Porém, como estamos condicionados a ir apenas às direções do que está na frente, acima e pra fora, cultuando as deusas razão e matéria, em busca do prazer quantitativo e efêmero, o sofrimento virou patologia e, na maioria das vezes, diagnosticado como depressão. Aprendemos a negar a angústia e, com isso, a criatividade genuína. Valorizamos as anestesias, os analgésicos, os ansiolíticos e os antidepressivos, assim não fazemos a descida aos infernos, imergindo na profundeza da alma, apesar do sofrimento do ego, para cumprir a verdadeira jornada do herói na direção do si mesmo. E, para cumprir essa jornada, tão temível na contemporaneidade, é necessário irmos para trás, para baixo e para dentro.

Aprender a sabedoria da alma, com o propósito de atingir nossa meta de união com o absoluto, é quase um crime. Porque neste estado teremos impulsos de amar e servir e isso é ruim para o sistema alienante de consumo, acúmulo, dívidas e trabalho sem sentido e significado. Aprendemos a conter as emoções e, com isso, a ficarmos cada vez mais neuróticos, consumindo toda sorte de substâncias psicoativas com intuito de aliviar a angústia e esperar a morte chegar. Para romper esse ciclo é necessária uma crise que produza a metanóia. A mudança de paradigmas, possibilitando o desapego e o cuidado, com resgate da intimidade e do amor, como instrumentos arquétipos em desuso na atualidade.

O mal está associado a escândalos – que em grego é skandalon, significando obstáculos e empecilhos – suscitando crimes, golpes, latrocínios, homicídios, suicídios, guerras, discórdias, prostituição, traições, invejas, enfim toda sorte de tragédia, angústia e caos que constituem a frágil e aflitiva condição humana. A pedra de tropeço, que significa manquejar, designa o obstáculo que repele para atrair, atrai para repelir. Não podemos topar com essa pedra uma primeira vez sem voltar sempre a topar com ela, pois o acidente inicial e depois os seguintes a tornam sempre mais fascinantes. Da mesma forma, o pecado – hamartia – também contextualiza a falta e a perda do alvo, representado pelo daimon ou chamado vocacional da existência. Por isso, o sofrimento do sacrificado pode representar um processo de lapidação ou de queda, que significa, simbolicamente, a tomada de consciência e o aperfeiçoamento, ele também pode permitir o restabelecimento da ordem.

A Crise é a base de toda a evolução humana. Apesar dela gerar sentimentos de violência e de violação, ela é a possibilidade de tomada de consciência e evolução criativa. Porque a crise, de maneira violenta, tira o indivíduo de sua rotina profana, onde a vida é vivida sem significado e sem sentido, podendo levá-lo, pela necessidade de superá-la, a uma dimensão sagrada e de sabedoria. É por meio da superação de situações de conflito que o sagrado imanente e inconsciente pode tornar-se transcendente e consciente. Mas, para isso, é necessário termos a consciência do caminho e do daimon, evitando assim o trágico, que equivale a trafegar sem destino, o pecado, a perda do alvo ou do propósito, o desastre, a desconexão com os astros e, consequentemente, o escândalo, ou tropêço. Apesar de que todas essas ocorrências traumáticas e dramáticas possibilitam a tomada de consciência e o realinhamento com o processo de individuação, proposto por C. G. Jung.

Compreendo que todas as manifestações mórbidas, incluindo o trágico e o desastroso, nas esferas psíquicas, físicas, familiares, laborais, sociais, espirituais ou ecológicas podem ser grandes possibilidades de tomada de consciência. Porque estamos vivendo numa época de dissociação, onde todos os sistemas estão ruindo. Mas isso, a meu ver, é o prenúncio da mudança de paradigma para este atual sistema egoísta, consumista e cumulativo. Por isso que  fenômenos climáticos, biológicos e geológicos estão cada vez mais exuberantes e violentos e, como nada é por acaso, tudo isso pode ser compreendido como o estímulo para a queda e consequente tomada de consciência da humanidade.

É interessante refletirmos e ponderarmos que a atitude de não violência, a ahimsa, adotada por Mahatma Gandhi (1869-1948), na realidade foi muito violenta, porque violou o atual modelo da Lei de Talião, do olho por olho e dente por dente. Sua atitude foi de extrema violência contra a competição por meio da violência física e produziu enorme violência psíquica em seus oponentes, a ponto de possibilitar o surgimento da metanóia, ou seja, a mudança de atitude diante da brutalidade da invasão territorialista e do abuso de poder, eliminando os condicionamentos e automatismos alienantes, por dar oportunidade para a tomada de consciência, em busca de sentido e significado para as ações e para a vida.

Neste sentido, posso afirmar que o sábio é aquele indivíduo capacitado para produzir crises, no sentido de estimular tanto o autocentrismo quanto o altruísmo, possibilitando mortes simbólicas e mudanças de crenças na direção da expansão do autoconhecimento. Por isso, o sábio faz com que o tempo de Kronos inclua o tempo de Kairós.

Desta forma, o sábio não pode ser sempre tolerante, porque ao tolerar o intolerante ele pode retroalimentá-lo. Mas, ao invés de agir da mesma forma que o doentio, ele provoca a crise da enantiodromia, com serenidade para reconhecer que, em alguns momentos, o não agir é uma forma de agir, assim como o não falar também é uma espécie de fala, que pode dizer muito mais do que milhares de palavras ou ações. Utilizando esses instrumentos de forma consciente e consequente, sempre alinhados com sua intenção de produzir desconforto e transformação evolutiva do outro, valendo-se heroicamente de Areté e Timé, que lhe conferem honra, coragem e valor.

Para mim, o maior sentido da vida é o de servir, pois quem não vive para servir não serve para viver. Sendo que esse servir deve estar voltado para a humanidade, no dinamismo da teoria da dádiva que compreende o dar, o receber e o retribuir. Por que, neste sentido, dar é sinônimo de receber, ou seja, aquele que consegue se sentir recebendo quando está dando, além de estar numa atitude natural de liderança, terá autoridade e maturidade para servir a vida e, consequentemente, ao sagrado, ao invés de apenas se contentar, infelizmente como a maioria das pessoas, em fazer uso transitório da vida e do sagrado. Por isso, somente a troca de graça é que tem graça! Assim, por mais que a humanidade tente negar, parece que estamos na emergência de várias crises, da política ao meio ambiente, da ética aos valores espirituais, para que suas soluções possam produzir a superação e o advento de um novo paradigma.

Reiterando que sofrer é inevitável, mas a dor pode, talvez, ser superada. Transformada. Mas o sofrimento? O padecimento? As paixões da alma? Esses são próprios da vida. Simplesmente, porque não controlamos os outros, e muito menos a nós mesmos! Na realidade, não temos muito o que fazer com o outro de nós mesmos, representado por nossa sombra e complexos, que possuem, na maioria das vezes, autonomia, independência e até ascensão sobre nosso Ego que, de forma defensiva, acaba projetando esses elementos internos nos objetos externos. Isso faz com que o outro externo também seja transformando em objeto, na mesma medida dê que vamos negando nossa subjetividade, desanimando e virando objetos inertes, solitários e finitos. E, muitas e inúmeras vezes, esses outros de nós mesmos projetados em nosso entorno relacional, nos atingem gerando dor, assim como nós mesmos criamos situações de autoflagelamento físico e ou psíquico, para alimentar o complexo vitimário ou simplesmente pelo prazer da autopunição em expiar o sentimento de culpa.

Como não controlamos os outros (internos e externos, reais ou projetados), e os riscos da convivência e dos envolvimentos inevitáveis, embora, cada vez mais nos enganemos que o envolvimento não só é possível de ser evitado, como deve sê-lo. Tentamos evitá-lo, justamente, para, assim, numa tentativa insana de manter os relacionamentos sob controle, sejamos capazes de manter, também sob controle, o sofrimento. Daí que surge a dimensão do simulacro e das relações sintéticas, eliminando qualquer resquício da sabedoria.

Despeço-me com essas duas pérolas de escritores lusófonos:

“Quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria” – Clarice Lispector

“Quem não quiser sofrer que se isole. Feche as portas da sua alma quanto possível à luz do convívio” – Fernando Pessoa

WALDEMAR MAGALDI FILHO, Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: Dinheiro, saúde e sagrado – Ed. Eleva Cultural. Coordenador e professor dos cursos de especialização lato-sensu em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas, oferecidos pelo IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. wmagaldi@ijep.com.br

Publicado em Jung | Deixe um comentário

Individuação: Tornando-se você mesmo

Carl Gustav Jung em “O Eu e o Inconsciente” sobre o processo de individuação:

(…) “Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir ‘individuação’ como tornar-se si-mesmo (Verselbstung) ou o ‘realizar-se do si-mesmo’ (Selbstverwirklichung).”

(…) “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais. (…) Através da persona o homem quer parecer isto ou aquilo, ou então se esconde atrás de uma ‘máscara’, ou até mesmo constrói uma persona definida, a modo de muralha protetora.”

Não se vive uma vida em vão. Cada vida, com suas idiossincrasias, tem a sua beleza. Cada um de nós tem algo a desenvolver, algo muito particular, e nossa vida, por mais que pareça não nos fazer sentido algum, caminha no sentido da realização deste ser individual, incomparável, que somos.

“Estar” no mundo é fácil. O difícil é “ser” no mundo. O processo de “ser quem você verdadeiramente é” é complexo, longo e constante.

Na verdade, desde que nascemos, somos impulsionados por todas nossas experiências a nos tornarmos nós mesmos. Cada ser é único, com anseios, desejos, ideias e objetivos próprios. A vida é esta grande jornada de descobertas e, por mais que estejamos acompanhados, caminhamos sozinhos, justamente pelo fato de nosso caminho ser único, como já disse.

A princípio, inexperientes, somos apresentados ao mundo por aqueles que cuidam de nós, ou seja, nossos pais, ou qualquer outra pessoa ou instituição que cumpra este papel. Somos grandemente influenciados por aqueles com quem convivemos e por aquilo que nos apresentam. Mais adiante, passamos por um processo mais amplo de socialização, entrando em contato com outras pessoas e instituições, aprendendo a conviver com os outros e com regras, abstendo-nos pouco a pouco de nosso inicial egocentrismo.

Vamos assim, moldando nossos desejos àquilo que é possível, muitas vezes copiando modelos impostos ou conhecidos, outras vezes, abdicando deles. Porém, o fato é que, no decorrer da vida, vamos nos dando conta de que muitos dos modelos de que nos utilizamos até aquele momento já não nos servem mais. É quando começamos a nos aproximar verdadeiramente de nós mesmos.

 

A este processo, Jung denominou “individuação”. A individuação se inicia desde o momento em que nascemos. Depois de conquistarmos nossos papéis sociais nos mais vários âmbitos (familiar, profissional, etc.), percebemos que são apenas papéis, e que, consequentemente, existimos além destes papéis. Temos uma essência. Uma profunda angústia pode nos assolar ao olhamos para o caminho já percorrido e, então, questionamos nossa vida. A vida nos parece absolutamente sem sentido, parece que nos falta algo. É quando nossa “alma” clama por algo mais.

Esta insatisfação pode ser deflagradora da mais desafiadora de todas as jornadas: o conhecimento de nós mesmos. É claro que nem todos alcançarão este conhecimento. Muitos recalcitram no que já é familiar, muitos seguem os mais diversos padrões e condutas já estabelecidos ou experimentados. Há os que quebram os padrões patologicamente, como um ato de vandalismo e autoafirmação pela oposição – o que NÃO É individuação – mas se aproxima mais de uma adolescência, que tardam em abandonar.

Tornar-se quem se é verdadeiramente implica cruzar um vale de sombras para encontrar a luz. Implica uma observação aprofundada e dolorosa dos aspectos menos sadios de nossa psique. Implica desfazermo-nos de fixações que nos trazem uma falsa segurança ou um falso, deslocado, prazer. Em outras palavras, individuar-se é para os fortes.

Como empreender esta viagem? Infelizmente, nem todos partem em destino ao autoconhecimento, por medo dos mares nunca antes navegados. E, os que partem, muitas vezes o fazem pelo caminho da dor. Nossos sonhos estão ao nosso lado, quais faróis em um mar revolto, o tempo todo, apontando a direção. O autoconhecimento é alcançado com muita reflexão, com muita observação do mundo interno, com o abandono das “máscaras” e “roupas” velhas, que já não nos servem mais. Ninguém se conhece sem conhecer sua sombra. Ninguém se encontra sem reconhecer seus “monstros”. Somente compreendemos a luz em oposição à sombra. Há muitos caminhos que podem nos levar a sermos seres autênticos, que nos conduzem ao encontro indescritível de nossa “alma”, à busca de nossa luz; a psicoterapia é um destes caminhos. E, ao nos encontrarmos de verdade, recuperamos finalmente o sentido da vida e do mundo.

No capítulo ”O processo de individuação” do livro “O Homem e seus Símbolos”, M.-L. von Franz nos deixa a mensagem: “Nossa atitude deve ser como a do pinheiro (…): não se aborrece quando o seu crescimento é obstruído por alguma pedra, nem faz planos para vencer os obstáculos. Tenta simplesmente sentir se deve crescer mais para a esquerda ou mais para a direita, em direção à encosta ou afastado dela. Tal como a árvore, devemos nos entregar a este impulso quase imperceptível e, no entanto, poderosamente dominador – um impulso que vem do nosso anseio por uma autorrealização criadora e única. É um processo no qual é necessário, repetidamente, buscar e encontrar algo ainda não conhecido por ninguém. Os sinais orientadores ou impulsos não vêm do ego, mas da totalidade da psique: o self. ” 

Iolanda Krusnauskas

BIBLIOGRAFIA:

Carl Gustav Jung, O eu e o inconsciente, Editora Vozes, 1987 (Obras Completas de C. G. Jung, v.7, t.2).

Carl Gustav Jung, O homem e seus símbolos, Editora Nova Fronteira, 1964.

Publicado em Jung | Deixe um comentário

O conceito de projeção de Jung: sou o que me incomoda ou me encanta

Demorei algum tempo para entender o conceito de projeção de Jung, talvez porque implicasse em admitir traços de minha personalidade que achava deprimente. Mas, a verdade é que quando comecei a me perguntar porque algumas características me irritavam ou me indignavam nos outros, acabei descobrindo que isto acontecia porque se tratavam de expressões externas de impulsos íntimos que eu tinha, mas considerava desprezíveis.

A projeção é um fenômeno absolutamente inconsciente que consiste em projetar fora, em outros seres, humanos, animais ou objetos, tudo o que nosso consciente reprime. A projeção pode ser negativa ou positiva; assim, tudo o que criticamos, tudo o que caçoamos nos outros, tudo o que nos outros nos enerva e nos é hostil, não passa, no fundo, de projeção de nossos elementos inconscientes;  o mesmo sucede com tudo o que nos outros admiramos e cobiçamos ou que nos agrada .

ERNA VAN DE WINCKEL (Do inconsciente a Deus, p. 65)

O ódio, raiva, medo ou desprezo que sentimos por pessoas, animais ou mesmo objeto fala do que mais desprezamos ou tememos em nós. Se sentimos muita raiva de pessoas que são promíscuas, corruptas, subservientes, ignorantes, desonestas etc., é porque temos em nosso inconsciente impulsos para expressar comportamentos semelhantes. Para encontrar estes impulsos precisaremos observar nossos pensamentos e sentimentos, até perceber nossos desejos mais íntimos, severamente negados geralmente por preconceito religioso, familiar ou cultural. No dia que percebermos e aceitarmos este traços em nossa personalidade deixaremos de projetar e então poderemos tratar destas características em nós. 

Silvana Medeiros

Publicado em Jung | Deixe um comentário

Toda marca vem para nos transformar

Quem nunca sentiu o ardido de um joelho ralado? Ou soprou um machucado pra sarar? No meu caso, se ainda hoje toco o queixo, sinto a cicatriz dos pontos que levei após uma queda brusca no corredor de casa porque sai correndo de meias. Motivo bobo, mas com consequências um pouco dolorosas, mesmo que momentaneamente e, que deixou uma pequena marca que já dura mais de 20 anos.

Dessas marcas tenho outras…ralados nos joelhos, arranhões da gata que me acompanhou durante a infância até a juventude, marca de vacina no braço, e por aí vai. Mas, para além dessas visíveis, carrego outras que ao longo da vida tem me transformado no que sou.

Essas cicatrizes visíveis e invisíveis que carregamos no corpo e na alma fazem parte da história de todo ser humano. Como em um livro, elas contam sobre nossa biografia e sobre como nos esfolamos e nos calejamos na trajetória da vida. Também falam das alegrias que ficaram gravadas na memória e que nos edificaram e transformaram nos diversos momentos de metamorfoses que passamos.

Como diz sabiamente o Psiquiatra Carlos Byington, “qualquer criança sadia logo descobre que o preço de aprender a caminhar é pago com quedas, dores e lágrimas.”

E assim, desde os primeiros passos, vamos ganhando nossas marcas, mas também exploramos o mundo, adquirimos experiência e maturidade.

É verdade que, às vezes, preferiríamos ter corpo e alma imaculados! Mas, se assim fosse permaneceríamos como verdadeiras lagartas rastejantes na busca devoradora pelo alimento, impedidos da liberdade do voo e da possibilidade de realizarmos nossa vocação e chamado de vida.

Em uma linda passagem do livro A Virgem Grávida, Marion Woodman nos conta sobre o processo de metamorfose das lagartas em borboletas. Em um dos trechos ela diz:“…descobri que a borboleta é símbolo da alma humana. Também descobri que, em seus primeiros momentos do lado de fora da crisálida, a borboleta excreta uma gota de um fluido que se acumulou durante a fase de pupa. Essa gota é geralmente vermelha e às vezes pinga em seu primeiro voo. Simbolicamente, para que libertemos a nossa própria borboleta, também precisaremos sacrificar uma gota de sangue…”

Assim, nunca mais seremos os mesmos depois de uma marca! Tudo aquilo que fica registrado no corpo e na alma, de maneira consciente ou inconsciente nos molda, nos transforma, nos influencia e nos guia para a individuação.

Algumas marcas são comuns a todos nós. Elas fazem parte dos ritos de passagem que envolvem cada fase da vida.  Afinal, não há quem não tenha acordado um dia com uma espinha no rosto ou quem envelheça sem rugas, não é mesmo?

Outras cicatrizes remetem momentos de profunda alegria e transformação, como a marca da cesárea que retrata a passagem da “filha/menina” para a “mãe/mulher”. Outras são como tatuagens, frutos de uma escolha pessoal, que revelam em sua imagem o símbolo de uma ideia, de um sentimento, de uma fase da vida, de um desejo, uma dor, um amor, uma amizade, uma conquista, ou algo com significado pessoal.

Mas, existem às que são adquiridas brutalmente. Feridas visíveis e invisíveis provenientes dos traumas, dos abusos, das violências, das perdas, dos lutos e das mais diversas experiências dolorosas que podem inundar a alma humana. Elas podem se tornar verdadeiros cancros abertos que mutilam a personalidade verdadeira e nos transformam em pessoas desconfiadas, negativas, destrutivas, depressivas e desesperançadas.

Há também àquelas que são vistas como verdadeiras deformidades, das quais preferimos nos esconder e ocultar do outro. Marcas que nos envergonham e limitam a entrega em relacionamentos e na intimidade. Essas, nos desafiam a superar as aparências e as projeções para que possa ocorrer uma entrega verdadeira. E assim, recebermos, através do amor e do afeto, o alento, o conforto e a aceitação tão necessária em nossa frágil existência humana.

Mas, não podemos nos esquecer das marcas que nos protegem e que, assim como as vacinas, nos imunizam e nos fortalecem. Elas são deixadas pelo apego seguro dos nossos cuidadores, pelas boas lembranças, pelos momentos felizes, pelo amor, pelas cicatrizes cirúrgicas que salvam a vida e pelos obstáculos ultrapassados. Algumas podem até doer, mas nos transformam em pessoas melhores, mais resilientes e resistentes aos baques da vida.

Feridos, marcados e cicatrizados, todos nós seguimos adiante com nosso processo de metamorfose. Morte e renascimento, este é o chamado da vida! Se o negarmos ou resistirmos a ele, a consequência será a fixação da personalidade, o adoecimento e a estagnação. Se seguirmos adiante, em algum momento encontraremos a cura e conseguiremos então libertar nossas asas e alçarmos voos rumo à realização.

Marcela Bianco

Publicado em Reflexões | Deixe um comentário

Lombar e a flexibilidade comportamental

A coluna vertebral, o eixo do corpo, constitui para a Leitura Corporal o “Pilar de Afirmação de Identidade”. Ela sustenta e dá origem às formas de manifestação da estrutura psíquica, emocional, comportamental e física do indivíduo e atua na definição dos jeitos de representar-se.

COLUNA LOMBAR

A coluna lombar, localizada entre o sacro e o tórax, elabora as formas de viver e atuar de maneira segura e confortável. Para a Leitura Corporal, viver com conforto e segurança é desenvolver e experimentar formas agradáveis de viver as situações cotidianas ou inusitadas da vida. É uma conquista obtida quando há disposição para sentir, considerar e a agir segundo o querer; para experimentar e modificar o jeito de fazer, até que se encontre uma forma prazerosa e eficaz de atuação e de convívio com a situação.

A coluna lombar estimula a flexibilidade comportamental. Diante de dificuldades emocionais, quanto mais rígidos nos mantemos em conceitos e atuações pré-estabelecidos, mais a coluna vertebral, principalmente a coluna lombar, trabalha em nós a liberdade para a experimentação do que é vigente segundo as características do momento presente.

Pois a vida é movimento, é fluidez. Sempre respeitando os limites pessoais de segurança, é a flexibilidade o melhor caminho para a estabilidade e o equilíbrio!

Fonte: http://www.leituracorporal.com.br

Publicado em Leitura Corporal | Deixe um comentário